Entrevistando Lorde: “O sonho adolescente” por The Telegraph.

No Halloween no leste de Londres, bandos de adolescentes andam pelas ruas, borrões de tinta branca na cara, chifres do diabo e dentes de vampiro de plástico. Eles estão se deleitando neste carnavalesco festival de desordem. Uma sanção, por uma noite, para parecer assustador e provocar um leve incômodo na vizinhança e não ganhar um mandato judicial. Em uma rua ao lado, dentro de um elegante clube local que eles não podem entrar, o canal de música online Vevo está dando uma festa privada, onde vencedores de competições, convidados a se vestir no tema “pesadelo neon”, estão sendo entretidos com alguns novos artistas.

No topo da lista está a adolescente da Nova Zelândia que recentemente se tornou a artista mais nova a entrar no topo das paradas do Reino Unido em número um desde Billie Piper, de 15 anos, em 1998. Ella Yelich-O’Connor, que atende pelo nome Lorde, canta letras agudamente observadas sobre a verdadeira alegria e o tédio de ser um adolescente com hipnóticas batidas eletrônicas, uma combinação que se provou irresistível em todo o mundo. Em março, sua canção Royals ficou em número um nas paradas de seu país de origem. No começo do mês passado, ela se tornou a artista mais nova a chegar em número um na principal parada americana desde Tiffany com “I Think We’re Alone Now” em 1987, tirando Miley Cyrus do primeiro lugar.

Este último fato é como a cereja do bolo para alguns, que saudaram O’Connor não só como a nova estrela pop que apareceu, mas como um tipo de “cavalo de tróia” que veio para nos livrar da provocação sexual entupindo as paradas. As afiadas observações narrativas de Lorde, tanto em Royals quanto em seu álbum Pure Heroine, a levaram a ser rotulada com a voz de sua geração e a ser mencionada ao mesmo tempo que a heroica garoto do Paquistão Malala Yousafzai. “Todos tem diferentes opiniões sobre mim.” Ela disse após mais um cansativo promovendo. “Eu li aquela comparação que fizeram entre mim e Malala e acho que não sou digna de estar na mesma frase que ela. Eu não fiz nada.” Parece que O’Connor só está feliz por ser um novo estilo de estrela pop.

“Eu não esperava estar nesse mundo, mas acho que é legal. Por um longo tempo o pop foi cômico, vergonhoso. Mas na verdade é gratificante e divertido, e pode unir populações, o que é extremamente poderoso. Então espero que esteja mostrando que o pop pode ser levado a sério.”

Quando nos conhecemos, O’Connor, que fez 17 anos dia sete, mal conseguia se sentar reta. “Eu estava com uma infecção renal quando peguei o avião para vir aqui. Levaram-me para o hospital e agora estou tomando antibióticos fortes.” Com seu pálido tom de pele gótico compensado por seus lábios escuros, grandes olhos pretos e cintura de comprimento, curvas de mogno, ela dificilmente poderia ser mais diferente das lindas e sorridentes princesas adolescentes que vieram antes dela. Ela parece ser muito mais velha do que realmente é, uma percepção reforçada pelo profundo, dominante timbre de sua voz sonora.

O sucesso britânico de O’Connor veio só depois de sua compatriota de 28 anos Eleanor Catton. É quase uma chamada para aqueles que assumiram que a cultura moderna da Nova Zelândia não passava de Hobbits, Crowded House e Jane Campion acordarem. É algo na água de Auckland que no momento está produzindo essas assustadoramente talentosas mulheres novas, eu pergunto. Ela ri, “É um pouco estranho. Ellie é muito talentosa. Eu amei seu romance que estreou quando ela tinha 22 anos, foi muito bonito. Acho que é porque estamos muito longe de tudo. Enquanto estava crescendo, pensava que queria fazer alguma coisa e sair de Auckland. Eu amo a Nova Zelândia, e estou gostando mais porque vou voltar depois de viajar tanto. Mas como adolescente crescendo em Auckland, não estava ligando.”

No palco na noite passada, O’Connor não revelou nenhum sinal de sua doença, nem que ela só fez 20 performances ao vivo. Enquanto em vídeos e fotos ela adota a timidez, no palco O’Connor tem uma teatralidade patética: em um minuto ela cedendo ao estilo Stevie Nicks, balançando o cabelo e sacudindo as mãos; no próximo, ela é toda longos sorrisos e piadas, irritando sua audiência.

Quando não está sendo Lorde, O’Connor é claramente mais quieta, mais caráter introspectivo que poderia com facilidade ter tomado um caminho mais literário na vida. A segunda mais velha de quatro crianças, O’Connor cresceu na parte norte de Auckland. Seu pai é engenheiro civil e sua mãe, Sonja Yelich, uma poetisa que encorajou as tendências estudiosas de sua filha. Com 12 anos, O’Connor estava lendo livros de Raymond Carver; com 14, ela estava editando a dissertação de mestrado de sua mãe. “Minha mãe sempre queria ter certeza de que tínhamos vários livros ao redor. Por muito tempo nós tivemos uma televisão, mas nenhum DVD player. Ela comprou um, mas só nos deixou assistir coisas como “Wonder Woman” e “The Partridge Family and Little House on the Prairie”, aqueles programas eram muito legais.”

Desde pequena, O’Connor demonstrou ter aquela distintiva confiança em seus próprios gostos. “Minha mãe tentou me botar em aulas de poesia, mas eu não gostava. Eu leio histórias de ficção o que tem muito mais a ver com letras de músicas.” Com 5 anos, ela foi com sua amiga para um grupo de teatro e descobriu seu amor por cantar e atuar. “Existe algo mágico e sagrado em atuar. Eu tive que mudar para um lado diferente de mim mesma e me tornar um eu diferente.”

O’Connor explodiu na indústria da música com uma combinação de moda antiquada e técnicas modernas de marketing. O amigo de seu pai a viu, aos 12 anos, cantando versões de Warwick Avenue, do Duffy, e Mama Do, da Pixie Lott, em um show de talentos da escola, e ficou tão tomado por sua voz que mandou fitas dela cantando que chegaram nas mãos do caçador de talentos da Universal. “Foi estranho para mim me lançar nos holofotes. Eu sempre fui a garota tímida que estudava.”

Universal colocou O’Connor junto a um músico formado de 30 anos Joel Little para traduzir seus vocais de assombro em músicas totalmente formadas. Eles se encontravam em fins de semana e feriados, quando O’Connor juntava seu amor pelas antiquadas harmonias pop e um gosto crescente por artistas eletrônicos como Animal Collective. Joel forneceu batidas esparsas e propulsoras.

“Escrever músicas é estranho porque você escreve coisas íntimas e depois vai ao estúdio com alguém que você não conhece, no caso Joel que tem duas vezes a minha idade e diferentes experiência. Mas foi em uma estranha situação que aquilo funcionou. Ele era muito bom em ser perceptivo e entender o que eu estava fazendo, o que é algo impulsivo.”

Durante quatro anos, desde 2009, os dois fizeram 10 músicas para seu álbum de estréia, mas O’Connor diz que nunca pensou que uma delas seria um sucesso em todo o mundo. Ela insistiu que suas primeiras músicas fossem postadas para dowload gratuito no SoundCloud sem nenhum vídeo ou foto para promovê-las. “Eu nunca vi minhas músicas no topo da Billboard das mais vendidas. Eu tentei vender minhas músicas do mesmo jeito que meus produtores indie favoritos faziam.”

Enquanto outros artistas pop principais como Katy Perry e Britney Spears se voltam para o mesmo pequeno grupo de produtores em Londres, Estocolmo e Los Angeles, que fazem genéricas músicas de rádio de estilo dance, alguns artistas mais experientes como Kanye West e Lady Gaga optam pelo mais complicado, composições barrocas. Pelo contrário, o som de O’Connor é simplesmente cinematográfico, contos reais de sonhos de adolescentes – sem dinheiro, com saudade e solidão, mas com noites felizes – que rejeitam clichês de diversão sem sentido e decadência.

“Desde o início eu escrevo para meus amigos. É algo unificador. Você nunca vê as pessoas fazendo unificações para adultos, mas todos fazem para adolescentes. As pessoas esquecem que somos seres humanos e pensamos diferentes um dos outros.”

Seu pensamento sobre vida adolescente está muito distante das histriônicas técnicas de Miley Cyrus, a cantora da América que atraiu a crítica por ter posado nua no seu mais novo vídeo. O’Connor é uma feminista que atacou a cultura do fatal efeito do Photoshop na autoestima de mulheres novas, mas ela insiste que não está se colocando contra a figura de Cyrus propositalmente. “Isso com certeza é a reação de uma pessoa mais velha à minhas músicas. Eu com certeza iria tirar minha roupa se quisesse e essa seria minha escolha e eu seria habilitada a fazer isso.”

O’Connor, com sua preocupada mãe que está esperando o final da entrevista, possui uma maturidade que é, por agora, protegendo ela da loucura crescendo ao seu redor. “Com que eu estou fazendo agora, estou aprendendo muito mais que conseguiria aprender em qualquer universidade em qualquer idade. Toda vez que entro no palco aprendo uma coisa nova. Estou evoluindo o tempo todo. Minhas próximas músicas poderiam soar completamente diferentes.”

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