“As pessoas me tratam como se eu fosse um brinquedo interessante” – Entrevista para o The Guardian.

Ella Yelich-O’Connor está sentada no chão do camarim em Auckland, Nova Zelândia. Não posso realmente vê-la, estamos conversando pelo telefone. Na maioria dos dias ela acorda de madrugada por causa da diferença de 12 horas entre seu país de origem e solicitações de imprensa na Europa e América. Até onde me lembro, acordar de madrugada quando você tem 17 anos não é fácil. “Eu sou muito boa em contar às pessoas que eu tenho que manter o horário normal,” ela me corrige. “Você pode trabalhar duro e tornar isso manejável.” Há a voz distintiva, baixa e adulta, apenas o bizarro beco sem saída da conversação revelando os últimos traços do embaraço adolescente. No dia em que nos falamos ela abriu a premiação ‘Vodafone New Zeland’ com reformulação estilo livre de Royals, que é – no caso de você estar em outro mundo durante os últimos três meses – a música do ano, total e absolutamente, da maneira que uma mágica música pop pode ocasionalmente dominar um ano inteiro.

Yelich-O’Connor – ou Lorde, como ela é conhecida através do mundo todo – sabia que Royals ia ser um hit. A fórmula é original: um canto de recreio, uma batida de hip hop cavernosa, harmonias que desaparecem para cima como volutas de fumaça, e mais importante, uma mensagem – um comentário aos excessos da cultura pop, “usando esse meio, eu estava criticando para mostrar minha opinião.” O prefeito de Nova Iorque usou Royals como uma canção de vitória quando ele subiu no pódio em Manhattan, no Park Slope dia 6 de novembro. Na semana seguinte, Lorde voltou a sua antiga escola em Auckland, Belmont Intermediate, para ser jurada em um show de talentos, e 500 alunos cantaram para de boas vindas para ela – um exército de crianças com vocal gutural, fracamente formidável como as crianças em The Wall, do Pink Floyd. Era a música das crianças do subúrbio, afinal: “Não corre no nosso sangue, esse tipo de luxo não é pra gente. Nós procuramos outro tipo de agitação.” Enquanto o ano chega ao fim, adultos do mundo inteiro podem ficar tranquilos de que a geração mais nova não está completamente perdida para o culto da bunda de Miley Cyrus. Como Lorde coloca, quase sem expressão: “Eu não acho que as pessoas olham para como estrelas pop vivem algo inspirador”.

Em outro dia, eu li o grande perfil de Lorde escrito por um jornalista da Nova Zelândia que pesquisou sobre ela durante a maior parte de um ano – um ano! – conduzindo “exclusivas” entrevistas com os pais (uma mãe poetisa e um pai engenheiro, com ancestrais croata e irlandês, respectivamente) e professores da garota que, aos seis anos, foi declarada de ter uma idade mental de 21. Era uma peça notável de relações públicas para alguém que um ano atrás era completamente desconhecida, mas então Lorde entrou na cena e inevitavelmente criou seu próprio estrelato. Estava tudo nas letras: “Muito em breve estarei subindo no meu primeiro avião,” “Deixe-me ser sua governante,” “Estou indo até a coroa.”

“Eu era preventiva,” ela diz. “Eu não estava necessariamente dizendo que com certeza seria famosa, mas havia pedidos de gravadoras, pessoas me encorajando. Ao mesmo tempo havia esse sentimento de uma grande mudança aproximando misturado com saudade – você estava pensando em sua cidade natal, sentado com seus amigos, perdendo tempo, esperando pela sua vida começar de verdade.”

Ela assinou com a Universal New Zealand aos 12 anos: seu empresário Scott Maclachlan, que lançou Groove Armada e Basement Jaxx no Reino Unido, se mudou para o país com sua esposa e estava esperando por um novo projeto quando – como a história segue – ele recebeu um vídeo dela cantando Warnick Avenue, do Duffy, em um show de talentos. Ele ofereceu covers soul para começar seu álbum, mas ela disse não: ela queria escrever suas próprias músicas. Então se tem um intervalo em sua história em que, como presumido, ela estava aprendendo a fazer as coisas (seu álbum de estréia, Pure Heroine, foi co-escrito com um homem de 30 anos de Auckland, Joel Little) – e então pronto: um hit e um álbum aparecem nos EUA e no Reino Unido com semanas de distância entre um e outro. A equipe de Lorde evitou a armadilha principal do moderno marketing pop que atingiu todos desde Little Boots até Lana Del Rey, quando uma ótima música sai e não há outros matérias para a ajuda-la, e depois de um tempo vem o álbum, a “maré” virou, os blogueiros estão entediados, e ninguém mais se importa.

Nas três passadas semanas ela se apresentou no The Late Show With David Letterman, deu um MOMA benefit apresentado pela Chanel e assistido por David Bowie em honra à Tilda Swinton (“um verdadeira heroína, essa mulher é uma deusa”), ficou no topo da lista dos adolescente mais influentes da revista Time e assinou um contrato de 2.5 milhões de dólares. Ela também está escrevendo canções para outras pessoas; hoje em dia todos desde Emeli Sandé até Jessie J colocam um limite em songsmithing profissional: isso sugere que você tem uma preocupação de longo prazo. “Alguém me manda uma batida, ou eles dizem, eu tenho esse refrão: eu estou fazendo todos os versos, esse tipo de coisa. Eu tenho viajado muito no momento e não tenho tempo em um quarto sem ninguém, e é uma ocupação bastante solitária. Mas eu gosto de ter que “entrar” na voz de outra pessoa. É uma coisa divertida, muito diferente de escrever suas próprias músicas – é mais avulso e livre.” Ela pode nos contar pra quem ela está escrevendo? “Não.”

Lorde não tinha ideia de que o novo prefeito de Nova Iorque tinha tocado sua música, mas isso era “um uso adequado, o que está certo, campanhas políticas são uma área um pouco cinza. Eu tive algumas surpresas, mas para a maior parte eu continuo um pouco com as rédeas apertadas com os meus trabalhos. Eu disse sim para 5% ou 10% de todos os pedidos que recebi.” Para o que ela diria não? Eu me lembro do Brian May, do Queen, que, sendo um vegetariano, uma vez disse que ele não aprovaria a música da banda ser usada para vender carne. “Eu sou um pouco cuidadosa com anúncios de produtos. Eu teria que ter algum tipo de afiliação pessoal com o produto o que é raro para mim. Se algo não fosse saudável ou não promovesse uma imagem de um bom corpo, eu levaria isso em consideração.”

No começo desse ano ela se declarou uma feminista “por que eu não seria?” Quando ela voltou à sua antiga escola, ela me lembrava mais da Darlene Conner de Roseanne do que qualquer recente adolescente – o tipo de garota que anormalmente inteligente sem necessariamente tentando parecer uma adulta, e com raízes dos dias de grunge quando até a pessoa mais descolada da escola podia sair por aí relativamente sem adornos. Lorde recentemente disse que Taylor Swift é “muito perfeita”; de Come & Get It, da Selena Gomez, ela disse “estou cansada das mulheres serem retratadas deste jeito”, e que a Lana Del Rey – cujo pop urbano influenciou sua própria música – era um exemplo ruim para as garotas com sua “camiseta curta, desesperada, não me deixe tipo de coisa”. Então tem sua esperta rejeição à Miley Cyrus: “estar numa instituição como a Disney durante toda a vida, é importante ela se divertir.” Mas com um grande número de desculpas iriam sugerir, as críticas foram uma curva de aprendizagem. Lorde passou a maior parte de suas recentes entrevistas sendo empurrada para uma disputa com todas as outras estrelas pop no planeta e solicitada para fazer um comentário para conseguirem uma manchete.

“Isso é tão estranho para mim, o jeito que a mídia coloca garotas contra outras garotas para ter certeza de que há sempre alguma batalha acontecendo. Se um cantor homem fizesse algum comentário sobre outro, isso não seria uma ‘briga de gatos’. É incrível: você consegue escutar as pessoas tentando conseguir sua manchete, e eu estou ficando boa em responder, ‘Eu não sei, o que você acha?’ e então eles hesitam. Ninguém me pergunta sobre o que eu penso dos artistas masculinos; eu só sou questionada sobre mulheres.”

Talvez o combate garota-garota é a razão dela só conversar sobre influências de homens na música atualmente. A primeira música que capturou sua imaginação quando criança foi One Love, do Blue: “ela era ótima. Eu estava sempre atraída pelas musicas com aquela inata atração.” Ela recentemente voltou e escutou “todas as músicas que fingi gostar quando tinha 13 anos”, como Talking Heads. Enquanto escrevia Pure Heroine, era o álbum de Kanye West e Jay-Z Watch the Throne que mais a inspirou: “eu olho para Kanye para inspiração em muitas coisas, e sua habilidade de tipo reinventar cada canção. Ele consegue continuar deixando as coisas interessantes, continuar fazendo as pessoas o seguirem, depois de uma quase longa carreira”.

Uma mensagem do seu segundo single, Tennis Court, é que os adolescentes tem medo de crescer. É uma das várias coisas em suas músicas que atingem a rara nota de ser verdade e surpreendente ao mesmo tempo. Ela está com medo do futuro? Ela não olha para as estrelas pop que nós enjoamos  muito rápido e fica preocupada de que o mesmo aconteça com ela?

“Eu estou consciente de que as pessoas  tem curta atenção: eu sei, eu sou culpada. Eu tenho 17 agora: o que acontece quando eu tiver 21, eu sou queimada ou algo assim? Eles ainda escutarão as minhas músicas?” As pessoas são, ela sabe, mais obcecadas com sua juventude do que ela imaginou que seriam.

“Eu achei que seria uma surpresa quando escutassem sobre mim pela primeira vez, então isso pararia de ser uma surpresa. Mas não, eu estive em algumas situações onde as pessoas me trataram como se eu fosse um brinquedo fascinante. É só um interessante tipo de coisa engraçada que você tem que lidar. É muito estranho para mim. Eu me sinto como um pequeno bebê. Mas é muito relativo: quando você tem a minha idade, todo ano é como uma enorme mudança. A diferença entre 15 e 17 é gigantesca para todo mundo”.

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